RH e COVID-19: escalada ao protagonismo em quatro atos

7/7/2020 –

Crise não é novidade para executivos brasileiros. No final da década de 2000, os Estados Unidos enfrentaram uma no mercado imobiliário que atingiu os bancos e teve desdobramentos em todo o planeta. Avançando para o Brasil em 2018, teve-se a greve dos caminhoneiros. No primeiro exemplo, os profissionais de finanças foram escalados para o combate. No segundo, foi a vez de as equipes de logística e operações entrarem em campo para salvar o resultado das empresas. Nunca se lidou com algo parecido com a COVID-19 e, agora, quem está na cara do gol é o RH.

Mas, se o tema é protagonismo, a atuação do RH durante esta crise será contada e recontada no futuro mais como um melodrama em quatro atos do que como uma partida de futebol em dois tempos.

1º ato: implementar o maior experimento coletivo da história deste país – aliás, do mundo -, de forma intempestiva e um tanto atrapalhada, é verdade. O home office nasceu a fórceps. Em questão de dias, foi assistido à flexibilização de várias regras, políticas e ways of working, que serviam mais à manutenção do status quo para aqueles que negavam a aproximação do futuro. E o tal amanhã chegou! Como no teatro, o primeiro ato expôs a trama de um enredo muito mais distópico do que os mais ousados filmes sci-fi de que se tem notícia.

2º ato: descobrir a importância de cuidar da saúde, da segurança, do bem-estar, da colaboração e de se estar próximo. Empresas que realmente se importam com o principal ativo criaram sistemas de suporte não apenas para os empregados que passaram a trabalhar em casa, mas também para aqueles que não puderam abandonar os postos de trabalho.

Também surgiram bizarrices, como os trackers, pessoas remuneradas para vigiar, através das câmeras dos computadores, aqueles que estão trabalhando em casa. Sem falar no batalhão que está preenchendo planilhas com a descrição das tarefas feitas durante o dia em home office. Eu aposto em uma mudança comportamental que condenará esses gerentes e empresários ao ostracismo corporativo! A falta de habilidade certamente já era conhecida pelos membros das equipes, mas de certo modo era suportada e relevada. Agora, será difícil ignorar que o rei está nu!

O experimento do home office deve resultar no amadurecimento da força de trabalho. As pessoas estão se dando conta de que são mais capazes, autônomas e independentes no trabalho. Vai ser possível trabalhar para quem quiser. Utópico? Acho que é questão de tempo. Enquanto escrevo este texto em junho de 2020, se vive em um dos intervalos entre os atos dessa grande peça teatral. Para que lado irá a trama dessa história? Que novos atores se revezarão no palco?

3º ato: desmobilização do home office ou o retrofit dos escritórios. É necessário fazer uma gestão da mudança para o retorno aos escritórios. Não é um mero acender das luzes. Muita coisa aconteceu ou mudou durante a quarentena. O RH deve se posicionar e liderar a confecção de um plano de retorno. As preocupações e medidas preventivas serão permanentes, pois outras pandemias ocorrerão no futuro. Esse medo influenciará a arquitetura corporativa. Facilities, uma área por muitos relegada a segundo ou terceiro plano, se torna relevante para a atração de talentos.

4º ato: em meio a um amontoado de acontecimentos insólitos, se encaminha para o ato final da peça. O desenlace? Todos nos preparando para a retomada dos negócios. Será possível voltar a trabalhar como antes, vender, auferir lucro, produzir e ganhar mais. Mas não vejo uma retomada. Vejo um novo início. O mundo mudou, está mudando, mudará. Os setores de artigos de luxo, vestuário e viagens perderam 90% das receitas. E tudo o que é e-commerce, logística de delivery, saúde e ensino a distância cresceu bastante. Startups de tecnologia demitiram de 20% a 50% dos quadros. Algumas encerraram as operações no país. Jovens que faziam fila para trabalhar nessas empresas agora estão procurando empregos “seguros” em empresas tradicionais. Mudança de propósito? Tudo isso em menos de dois meses. Imprevisível, né? Como arriscar o que virá depois?

De novo, é hora do RH protagonista.

As empresas precisarão se reinventar ou começar de novo. Essa readequação ao mercado consumidor exigirá um redesenho das organizações. As estruturas internas precisarão mudar para atender às novas demandas do mercado. O headcount e o talento interno das empresas também será redistribuído. O que fará sentido para o consumidor final? O perfil do cliente será outro? O que a empresa fazia que não é mais relevante? O talento precisará estar em marketing, operação ou design? Quais serão as competências essenciais para o sucesso da empresa? Que tipo de profissional será importante para cada negócio ou empresa?

Esta leitura de cenários, das mudanças comportamentais, o posicionamento e suporte às lideranças e desenho organizacional estão na área de domínio dos profissionais de RH. Quando as cortinas se abrirem para o próximo espetáculo, levo fé que será para ele que vai se puxar o coro de “Bravo”. E vou estar na fila do gargarejo.

* Marcelo Nobrega é Conselheiro da Vee, fintech de benefícios que proporciona flexibilidade e liberdade ao colaborador das empresas – vee@nbpress.com

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