A população vai às ruas: a lua de mel acabou

São Paulo, SP 11/7/2013 –

* Telmo Schoeler

Diante do cenário brasileiro, que tem trazido enormes dificuldades às organizações e pessoas produtivas, é preciso falar sobre as causas desse quadro e a Governança desta empresa chamada Brasil. Não vou me referir à política, mas apenas à gestão, ou seja, ao único fator capaz de dar sustentabilidade a qualquer organização, não importe se focada em lucro, controlada pelo Estado ou mesmo enquadrar-se na ilusória categoria de “entidade sem fins lucrativos”. Digo ilusória, pois nada existe sem dinheiro, que sempre é oneroso e, portanto, seu uso requer imperiosa eficiência, o que significa gerar um resultado maior do que seu custo.
Em nível de Governo, o resultado deveria servir para investimentos necessários ao cidadão, melhoria de qualidade de serviços públicos ou para redução de carga tributária e desoneração dos cidadãos consumidores. Uma regra financeira estabelece que toda disponibilidade de dinheiro cria sua própria destinação, por mais desnecessária. Salvo se houver um planejamento estratégico de investimentos relevantes e lógicos, de interesse do cidadão, não dá para deixar dinheiro na mão do Governo: com certeza irá para o lugar errado… e o Governo sempre quer mais!
Fazendo uma comparação com as regras de Governança empresarial, o cenário é trágico. Na vida real, um conselho e uma diretoria, só se mantém se trouxerem resultado e valor aos acionistas e agirem dentro dos princípios de Governança, quais sejam, transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. A era PT não tem produzido resultados. O crescimento do País nos dois períodos de Lula decorreram do somatório de fatores alheios à sua vontade, ou seja, seriam os mesmos sob a batuta de Jânio Quadros, Margareth Tatcher, Juscelino ou Ernesto Geisel: um crescimento da demanda e preços de commodities; um foco de investidores internacionais sobre países emergentes por inexistência de boas oportunidades em países desenvolvidos; a existência de capacidade ociosa no Brasil, permitindo atendimento de demanda com baixo reflexo nos preços, ou seja, com baixa pressão inflacionária.
Diante disso, o que vem fazendo o (des)Governo? Interferência para aumentar salários em termos reais; aumento da carga tributária; uso da expansão de receita para expandir os quadros de funcionalismo público de que não precisamos; criação de novas e desnecessárias empresas e estruturas estatais e distribuição de benesses e favores sob a forma de “bolsas” de toda a sorte. Bom para o PT e para poucos. Ruim para todos! É o mesmo que reformar o ginásio de esportes de uma empresa em recuperação que não está pagando seus credores e acionistas.
Tudo tem sido marketing puro e baseado em inverdades: mentira que… “nunca antes na história deste país”…; mentira que a crise mundial de 2008 era uma “marolinha”; ilusório anunciar a dizimação da dívida externa sem mostrar que foi substituída por dívida interna; absoluta parcialidade alardear um crescimento do País quando, há uma década, a indústria vem sendo sucateada, uma deterioração escamoteada por uma balança comercial e de pagamentos positiva, mas sem uma sólida e realista sustentação; mentira falar de um “PAC” para o qual não existe o dinheiro ou um “pré-sal” cuja tecnologia e viabilidade são e questionáveis; pura pirotecnia falar de novos programas que são re-embalagens de outros que não foram entregues. Ilusão mentirosa de que somos o melhor País, a melhor opção de investimento, o “ó do borogodó”.
Transparência? Inexistente. Equidade? Onde? Se apenas a máquina pública, o governo, o partido e os amigos tem sido beneficiados. Prestação de contas? Como? Se quando a foto dos números é ruim, o Governo recorre a casuísmos e expedientes de “fotoshop” para maquiar a realidade. Responsabilidade Corporativa? Se houvesse, teríamos foco no futuro e nas verdadeiras necessidades dos cidadãos e não nos interesses partidários.
Todas essas irresponsabilidades se fossem na esfera privada já teriam determinado a exoneração do Conselho, do Presidente e da Diretoria. Na esfera pública isto não ocorreu devido ao modelo político-partidário e de governo: uma ditadura executiva à qual todos os poderes se submetem e cujos órgãos de auditoria e controle são irrelevantes. Bem nos moldes do antigo modelo da ditadura do CEO que comandava o próprio Conselho e escolhia e contratava a auditoria externa. E à revelia de todos os princípios de Governança hoje pregados e praticados no mundo civilizado.
É isto que leva os cidadãos às ruas. Agora o mundo econômico é REAL: o preço das commodities está caindo; países que seriam grandes mercados estão com o pé no freio ou até andando para trás, impedindo que empresas possam aproveitar um câmbio, que a lei de mercado tornou mais realista, para exportar; mas que encarece importações, aumenta custos e pressiona a inflação. A renda já comprometida e o endividamento da população impedem a continuação do crescimento do consumo. O PIB não crescerá nem 2% ao ano (seria necessário mais que o dobro) e a atividade industrial está em queda. E até os favorecidos por custos em real e receitas em dólar não o são por estarem endividados nessa moeda.
A locomotiva EUA está crescendo, atraindo investimentos, acarretando subida de taxas e queda de Bolsas pelo mundo afora. O risco Brasil está subindo e a rolagem de dívidas será mais difícil e cara. Alguns investidores ainda olham para cá, porque respiramos e não vamos morrer, mas, definitivamente, deixamos de ser a economia queridinha do mercado.
O pano do palco caiu e a lua de mel acabou. Na vida resultados dependem e se sustentam com ações corretas, não apenas com discurso, futebol, samba e orgia. Não surpreende que Lula afirme que não é candidato em 2014, pois ele sabe que não tem como segurar um rojão desses e nem sabe como fazê-lo… (que falta faz o estudo numa hora dessas!) Também se deu conta de que desapareceu a alternativa do mote de campanha ser de culpar o “governo anterior”. Por isso, a lua de mel acabou, ou caberia o trocadilho de que a “Lula de mel acabou”? Torço para que os eleitores acionistas deste Brasil S.A. se deem conta de que na vida não há prêmios nem castigos, apenas consequências.
Telmo Schoeler é sócio-fundador e Leading Partner da Strategos – Strategy & Management, fundador e coordenador da Orchestra – Soluções Empresariais, a primeira e maior rede de organizações multidisciplinares de assessoria em gestão empresarial.

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